Difusão Artística

Programação

Concerto Sesc Belenzinho

Data: 13/12/2011

Horário: 21h

Local: Sesc Belenzinho

Endereço: Rua Padre Adelino, 1.000, Belenzinho

Guillaume Bourgogne regente

 

Programa

 

FABIEN LÉVY                                                    

Sonneries de Cantenac (avant le concert, aux abords de la salle)

 

GIOVANNI GABRIELI                                    

Doubles choeurs


ALLAIN GAUSSIN                                           

L’harmonie des sphères 
 

JOÃO PEDRO OLIVEIRA                               
Timshel


FLO MENEZES                                                 
La novità del suono  

     
MARCÍLIO ONOFRE                                      
Estudo sobre os arrependimentos de Velasquez

 

Concerto Sesc Santana

 

Data: 6/09/2011

Horário: 21h

Local: Sesc Santana

Endereço: Av. Luiz Dumont Villares, 579, Santana

Guillaume Bourgogne regente

 

Programa

 

PHILIPPE HUREL  
Loops II

 

SILVIO FERRAZ  
Window into the pond

 

OLIVIER MESSIAEN        
Appel Interstellaire (da obra Des Canyons aux étoiles)

 

OLIVER SCHNELLER   
Diastema
                                
INTERVALO
 
SERGIO KAFEJIAN  
Sobre Paranambucae 
                                   
GIACINTO SCELSI         
Nuits

 

FRANCO DONATONI   
Spiri

 

Concerto Sesc Vila Mariana

Data: 9/08/2011

Horário: 21h

Local: Sesc Vila Mariana 

Endereço: Rua Pelotas, 141, Vila Mariana

Joel Sachs regente

 

Programa

 

CHARLES IVES
Four Ragtime Dances

 

MARTIN HERRAIZ
Zonder Titel

 

DU YUN
Vicissitudes II

 

ROGÉRIO COSTA
Canzone per suonare a tre

 

MORTON FELDMAN
The viola in my life

 

MILTON BABBITT
Playing for time

 

HENRY COWELL
Tiger

 

ROBERTO SIERRA
Cuentos

 

Concerto Sesc Vila Mariana

Data: 31/05/2011

Horário: 21h

Local: Sesc Vila Mariana 

Endereço: Rua Pelotas, 141, Vila Mariana

 Guillaume Bourgogne regente

 

Programa

GIACINTO SCELSI 

Kya

 

JÉRÔME COMBIER 

Estran, poussière grise sans nuage

 

Intervalo

 

MARCOS BRANDA LACERDA

Passagens para clarinete baixo e vibrafone

 

RODRIGO LIMA 

Quando se muda a paisagem…

 

MIGUEL AZGUIME

Águas Marinhas  

 

Concerto  CCBB Rio de Janeiro

 

Data: 11/05/2011

Horário: 18h30

Local: CCBB - Rio de Janeiro

Rua 1º de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro, RJ

 

Programa

 

GYÖRGY LIGETI

10 peças para quinteto de sopros

 

GIACINTO SCELSI

Ko-lho (flauta e clarinete)

 

FRANCO DONATONI

Lucia IV (trompa e fagote) 

 

HEITOR VILLA-LOBOS

Trio de palhetas (oboé, clarinete, fagote)

 

LUCIANO BERIO

Ricorrenze (quinteto de sopros)

 

Concerto de Abertura Temporada 2011

 

Data: 12/04/2011

Horário: 21h

Local: Teatro Anchieta - SESC Consolação

Rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, São Paulo, SP

 

RICARDO BOLOGNA regente

 

Programa

JOHN ADAMS 
Son of Chamber Symphony


GEORGE CRUMB
Eleven Echoes of Autumn


FELIPE LARA
Tutti


MARCOS MESQUITA
Cadernos de Berlim 3


ALEJANDRO VIÑAO
Colision Y Momento

 

CONCERTO DE 12 DE DEZEMBRO

 

Camerata Aberta+ L´Itineraire 

Itinerário Aberto

 

GUILLAUME BOURGOGNE regente

 

GYÖRGY LIGETI
Trio para trompa, piano e violino

 

OLIVER SCHNELLER
Diastema

 

HUGUES DUFOURT
L’Afrique d’après Tiepolo

 

TRISTAN MURAIL
Mémoire/Erosion

 

Data: 12/12/2010

Horário: 16:00:00

Local: Auditório do MASP - Av. Paulista, 1.578 - 1º subsolo, São Paulo 

 

PROGRAMA DO CONCERTO DE 19 DE OUTUBRO

 

KONTRA-PUNKTE

Regente: Felix Krieger

 

TRAMAS

Contraponto é uma dessas coisas que o músico tem dificuldade de explicar ao não músico. Daí nascem as metáforas. Fala-se em verticalidade e horizontalidade, costura, artesanato, estabilidade e dinamismo – e também em cor, textura. Assim notas são pontos, melodias são linhas, e o entrelaçamento de notas e melodias estruturalmente afins talvez formem belos tecidos, com desenhos que podem ser seguidos no detalhe e em seus percursos, ou sincronicamente, no seu conjunto. Tão comuns no discurso musical, essas metáforas tornam-se tanto mais legítimas quanto mais se abrem como conceitos, fazem-se ferramentas do pensamento para, sinestesicamente, permitir a compreensão do som por meio do tato e da visão. É quando são bem sucedidas em sua performance, quando eficazmente dão a ver e tatear o som. Desde a Idade Média e particularmente na Renascença, o contraponto foi a arte de costurar linhas vocais. Numa visão geral, a metáfora funciona. Mas, se paramos para observar melhor, não há aí propriamente pontos em contraposição, mas sim movimentos melódicos concomitantes. É no artesanato musical que o compositor se depara com pontos: ele tem de resolver como cada nota vai “se relacionar” com as outras, entendendo-as tanto estática como dinamicamente. A palavra contraponto já é uma cristalização de uma metáfora.
Uma imagem cara ao músico contemporâneo é a da expansão. Trabalha-se num universo musical – sonoro, estrutural, histórico, imagético – expandido. Assim, um concerto intitulado Kontra- Punkte, terá de oferecer a público os múltiplos sentidos da palavra “contrapontos”. O contraponto interno da escrita barroca de Schein em contraponto com a escrita neoconsonante de Rihm ou Henze, tudo isso em contraponto com a obra serial integral de Stockhausen. Pontos, linhas e tecidos expandidos. Uma ponte entre os tempos, contraponto entre gêneros e estilos, no interior da trama que forma a música germânica dos séculos XX e XXI.

 

 

HANS WERNER HENZE (1926)

A obra de Henze caracteriza-se pela absorção de diversas culturas musicais, desde elementos da música de concerto ocidental – como o serialismo, o politonalismo e a música aleatória – até elementos do jazz e da música oriental. De orientação política esquerdista, homenageou em sua música personagens como Che Guevara e Ho Chi Minh, chegando a residir em Cuba nos anos 70. Henze definiu a sua estética como fruto de um temperamento norte-germânico contrapontístico projetado no sul arioso. Sua produção destaca-se também por óperas e música para teatro.

 

In memoriam: Die weisse Rose, Doppelfuge, 1965

Nesta peça, Henze combina duas técnicas separadas por quase 300 anos: a escrita dodecafônica, criada pelo austríaco Arnold Schoenberg no começo do século XX, e a fuga dupla, técnica desenvolvida durante o período barroco. “Die weisse Rose” (Rosas brancas) refere-se ao grupo que tinha este nome e que se tornou famoso por produzir, entre junho de 1942 e fevereiro de 1943, panfletos clamando por uma oposição ativa não-violenta ao regime nazista. Segundo o próprio Henze, a peça é inspirada na estrutura da Oferenda Musical, de J.S. Bach. O elo motívico da peça, enfraquecidas descidas e cuidadosas subidas, busca demonstrar a oposição entre resignação e revolta.

 

 

JOHANN H. SCHEIN - 1586–1630

Junto com Samuel Scheidt e Heinrich Schütz, Schein foi um dos compositores mais influentes do primeiro período do barroco alemão. Em sua obra, soube combinar em um contexto luterano o pensamento contrapontístico germânico com as inovações estilísticas do barroco italiano, como a monodia, o concertato e o baixo cifrado. Em sua produção vocal, podemos encontrar tanto obras sacras, que exploram técnicas sofisticadas de contraponto e desenvolvimento, quanto obras profanas de admirável leveza, simplicidade e humor; é notável que, nestas últimas, Schein é autor também dos textos.

 

Banchetto musicale – segunda suíte, 1617

Segundo o regente Felix Krieger, a ideia de incluir uma peça de Schein no programa surgiu para que se pudesse ouvir, juntamente com alguns dos mais importantes compositores alemães do século XX, também o início da música secular instrumental alemã. O Banchetto musicale (banquete musical) contém vinte suítes de variações e é considerada uma das primeiras obras representativas desta forma, estando também entre as mais perfeitas. Elas são formadas por danças: padouana/galliarda, corrente e a alemanda-tripla. Todas as danças de cada uma das suítes estão no mesmo modo e são ligadas por uma melodia em comum.

 

 

KARLHEINZ STOCKHAUSEN - 1928–2007

Principal compositor alemão do período pós-guerra, abordou as mais diversas maneiras de se trabalhar a composição, do determinismo calculado e absoluto ao processo de integração entre criação intuitiva, teatro, ópera e espiritualismo transcendental. No entanto, mais do que um grande ecletismo técnico e estético, sua obra reflete um pensamento extremamente coeso e consequente, integrado a uma concepção artística original.

 

Kontra-Punkte para dez instrumentos, 1952-53

O contraponto é uma das mais antigas e importantes técnicas de escrita da música ocidental, onde duas ou mais vozes se relacionam em constantes diálogos. Stockhausen explica a sua utilização do conceito de contraponto: “nesta obra, o que funciona de forma contrapontística são as dimensões do som, os seus parâmetros: comprimento (duração), altura (frequencia), amplitude (volume) e formas de vibração (timbre)”. Segundo o compositor, “Kontra-Punkte surge da premissa que, em um universo sonoro facetado, com notas individuais e relações temporais, todas as oposições devem ser dissolvidas até que seja atingido um estado no qual somente o que é unificado e imutável seja audível”.

 

 

WOLFGANG RIHM - 1952

Nascido em Karlsruhe, destaca-se por uma obra vasta – cerca de 400 já editadas – e por seu grande conhecimento cultural, tanto no âmbito musical quanto em outros, como literatura, arquitetura, cinema, pintura e filosofia. Suas obras caracterizam-se por um profundo questionamento artístico-existencial, cujas inquietações se transferem de uma obra à outra. Nelas, as inter-relações se encontram em constante crescimento, e cada composição traz intrigantes relações com obras anteriores, ao mesmo tempo em que aponta novas leituras a serem exploradas posteriormente.

 

Sphäre um Sphäre para onze instrumentos, 1992-2003

Rihm costuma considerar seu material composicional algo provisório, uma espécie de empreendimento. Uma vez desenvolvido, o material pode ser constantemente corrigido e completado através de expansões, adições, interconectividades ou elos. Para descrever este processo, Rihm faz uso de metáforas com técnicas das artes visuais: em Sphäre um Sphäre, o compositor utiliza a técnica de overpainting, em que a obra sofre diversas modificações, mesmo depois de publicada. A origem desta peça está em Et nunc II, revisada sob o novo título e complementada pela parte do piano, que veio a tornar-se uma peça solo independente chamada Nachtstudie (1992-94). Sendo assim, o concerto mostra não apenas um elo a música alemã dos séculos XVII e XX, mas também um elo entre momentos diferentes do processo criativo do próprio Rihm, dentro da peça Sphäre um Sphäre.

 

(Texto de abertura de Maurício Ayer, notas de programa de Sergio Kafejian e Juliano Abramovay)

 

 

Data: 19/10/2010

Horário: 20:30

Local: Grande Auditório do MASP - Av. Paulista, 1.578 - 1º subsolo, São Paulo

 

PROGRAMA DO CONCERTO DE 24 E 26 DE SETEMBRO

 

GROOVE

Regente: Guillaume Bourgogne

 

Vira e mexe, a pulsação explode no coração das salas de concerto. O nascimento da música moderna foi um rito de Sagração da Primavera, conduzido por Igor Stravinsky e Vaslav Nijinsky, que juntos com a orquestra e os Balés Russos promoveram a exuberância dos corpos ganhando o espaço na Dança da Terra. Pulsações agressivas – a atritar massas de sons – arrancaram as cadeiras do teatro do chão.

 

A fecundação percussiva da música de concerto é recorrente, como o eterno arranca-craca do mar sobre a pedra, energia primitiva, primordial, humana, demasiado humana.
Evoca mitologias da Terra, que impulsiona o corpo a despegar como ente livre, aberto ao reencontro com o mundo que o gerou, e que se expande e retrai, pulsa, amparado em solo estático.
Aquele que dança é um corpo cultural, um estilo de mover-se, a sedimentação de um movimento. O balanço – ou groove – é o corpo compartilhado por uma comunidade musical, que sabe como quando onde quanto se acentua, sabe o valor dos pulsos – que nada têm a ver com figuras escritas, mas sim com o sotaque, o modo como a fala diz de um povo, de um lugar, de um momento.

 

Assim como a afinação natural, o groove é o destemperamento da rítmica, um saber do corpo, de experiência feito, gaia ciência. É natural, por uma razão precisa: por ser culturalmente compartilhado, vivido por uma comunidade musical como algo que só se ensina no convívio, que não se aprende em livro.
Mas o músico de concerto é Homem de escritura. Seu corpo é além-do-homem, desdobra-se em contrapontos, vibrações que se apoiam em outras vibrações, dança sobre outra dança, uma metadança só corpo.

 

Como as danças nas suítes de Bach, o groove que ressurge no ambiente de concerto é uma soblimação do contato com a terra de um corpo potencializado, paradoxalmente esquartejado, disperso no espaço e recorporificado por ouvidos capazes de acolher o múltiplo – sem síntese.

 

 

IGOR STRAVINSKY (1882-1971)

 

Um dos principais compositores do século XX, renovou profundamente a linguagem musical do ocidente. Através de uma vigorosa escrita rítmica – calcada em poliritmias e polimetrias – e uma linguagem harmônica arrojada – apoiada em sopreposições de tonalidades e centros modais –, Stravinsky criou uma obra que, se estilisticamente passou por diversas fases, (est)éticamente sempre manteve um profundo rigor técnico aliado à uma profícua inquietação criativa.
 

 

Três peças para quarteto de cordas (1914)

Obra para uma formação pouco utilizada por Stravinsky que, apesar de composta em 1914, só foi editada em 1922. Segundo o musicólogo Eric White, o compositor intentou criar estudos que explorassem o popular, o fantástico e o litúrgico. A obra trabalha com a justaposição de elementos díspares e fragmentados, exigindo dos músicos efeitos extremos nos instrumentos e grande vivacidade rítmica. Temas desta peça foram reutilizados por Stravinsky em obras como Sinfonia para instrumentos de sopro (1920), Sinfonia dos salmos (1930) e Sinfonia em dó (1939-1940).

 

 

KARLHEINZ STOCKHAUSEN (1928-2007)

 

Principal compositor alemão do período pós-guerra, abordou as mais diversas maneiras de se trabalhar a composição, do determinismo calculado e absoluto ao processo de integração entre criação espontânea, teatro, ópera e espiritualismo transcendental. No entanto, mais do que um grande ecletismo técnico e estético, sua obra reflete um pensamento extremamente coeso e consequente, integrado a uma concepção artística original.

 

Kreuzspiel (1951)

 A peça pertence à fase serial integral do compositor e trabalha com a ideia, como o próprio nome diz, de um jogo cruzado. Dividida em três partes interligadas, ela explora movimentos de contração, expansão e inversão de registros de alturas. No primeiro movimento, seis notas concentradas no agudo e seis notas concentradas no grave invertem progressivamente suas posições. No segundo, há um processo de expansão e contração de notas a partir do registro médio. O terceiro movimento sobrepõe estas duas ideias. Por trás deste plano, Stockhausen insere uma estrutura rítmica na qual acentos e diferenças de dinâmicas criam uma ambiência quase cubista.

 

 

FRANCO DONATONI (1927-2000)

 

Compositor italiano, teve suas primeiras composições influenciadas por Bartók, Stravinsky, e Hindemith. Após sua aproximação com o compositor Bruno Maderna, Donatoni direciona suas pesquisas para as técnicas dodecafônicas e seriais. Destacou-se também por sua intensa atividade didática, tendo como alunos Ivan Fedèle, Pascal Dusapin e Magnus Lindenberg, entre outros.

 

Spiri (1977)

Obra composta após um quase abandono da composição por parte de Donatoni, marca uma ruptura total com as técnicas seriais até então utilizadas pelo compositor e adota técnicas de transformações orgânicas de pequenas células musicais. O próprio compositor define suas novas estratégias: “para mim, compor significa inventar os processos necessários para a transformação contínua da matéria”. Dedicada a Salvatore Sciarrino, a obra trabalha a partir de materiais musicas extraídos da tradição da música ocidental. 

 

 

PHILIPPE HUREL (1955-)

 

Um dos principais nomes da segunda geração de compositores espectrais franceses, Hurel estudou com Ivo Malec, Betsy Jolas e Tristan Murail. Suas obras aliam a preocupação com o timbre e o espectro sonoro a uma pesquisa sobre repetições assimétricas e reiterantes. Recebeu diversos prêmios, como o pensionário da Villa Médicis e Prêmio de composição da Sacem. É fundador e diretor artístico do Ensemble Court-Circuit.

 

Figures libres (2000)

Obra composta para o Ensemble Recherche sob encomenda de Barbara e Luigi Polla, encerra um ciclo que teve início com Pour Luigi e que tem como eixo central as preocupações de ordem rítmica. Segundo o regente Chistian Baldini, Figures libres possui um senso de clareza do discurso musical ao mesmo tempo em que propõe uma questão filosófica: como atingir a liberdade dentro de um contexto restritivo e precisamente estruturado? 

 

TATO TABORDA (1960-)

 

Nascido em Curitiba, teve como principais mestres a pianista Esther Scliar e o compositor e professor Hans Joachim Koellreuter. Acompanhou durante mais de dez anos os Cursos Latino-Americanos de Música Contemporânea. Em 1998, concluiu o mestrado em música brasileira pela Universidade do Rio de Janeiro, Uni-Rio. Sua obra é extensa e variada, abrangendo a música de concerto, o happening musicale, especialmente, a música para teatro

 

Pequena música noturna (1999/2007-revisão)

Composta durante a pesquisa para sua tese de doutorado Biocontraponto: como aprendemos contraponto com os sapos, a peça explora modelos extraídos de estratégias de diferenciação adotadas por criaturas com hábitos noturnos de comunicação, como sapos, grilos e vagalumes, no intuito de assegurar distinção e singularidade em um ambiente de enorme diversidade. Esses comportamentos acabam por criar um encaixe complementar entre criaturas que, em princípio, disputam o audioespectro e distribuem-se pelo eixo do tempo.

 

ELI-ERI MOURA (1963-)

 

Professor de composição na Universidade Federal da Paraíba – UFPB, Eli-Eri Moura dedica-se ao desenvolvimento de um processo composicional por ele chamado de música desfragmental, aplicado em suas peças de concerto. Esse processo recria e sintetiza vários procedimentos da música contemporânea, e interage, de forma estrutural. com referências de manifestações musicais populares brasileiras, cujos elementos são explorados a partir de aspectos microdimensionais (processos de desfragmentação).

 

Candomblé - 10'
 

 

PROGRAMA DO CONCERTO DE 26 E 29 DE AGOSTO

 

MÚSICA VIVA, MÚSICA NOVA

Regente: Lutero Rodrigues

 

 

HEITOR VILLA-LOBOS 1887–1959

 

A série dos Choros (1920-1929) representa o ápice da criação musical de Villa-Lobos e a década de 20, o período em que mais se aproximou dos movimentos inovadores da atividade musical do século XX. Estudos recentes sugerem que isto se deve às influências que recebeu, vivendo na cosmopolita capital cultural do mundo da época, a cidade de Paris. Voltando ao Brasil em definitivo, após 1930, assume posição mais conservadora, contradita apenas por algumas composições isoladas, até o final de sua vida.

 

Choros n.7 “Settimino”, 1924 

Com sua peculiar maneira de se expressar, Villa-Lobos assim definiu este gênero de obras: “Choros representam uma nova forma de composição musical, na qual são sintetizadas as diferentes modalidades da música brasileira indígena e popular, tendo por elementos principais o ritmo e qualquer melodia típica de caráter popular que aparece vez por outra, acidentalmente, sempre transformada segundo a personalidade do autor. Os processos harmônicos são, igualmente, uma estilização completa do original”. Sem se contradizer, a obra é uma sequência de diferentes episódios musicais, com seus próprios elementos temáticos, figuras de acompanhamento e características rítmicas, embora haja elementos que retornem, em diferentes contextos, e se destaquem dos demais. Um deles é o tema inicial que volta a ser ouvido somente nos compassos finais, tema que o compositor tem o cuidado de reapresentar em novo contexto rítmico, mas na mesma relação temporal de andamento. É também especial o momento em que se ouve a misteriosa participação do tam-tam, sem porém vê-lo, já que Villa-Lobos determina que o instrumento seja tocado fora de cena,escondido da visão do público.

 

 

CLÁUDIO SANTORO 1919–1989 

 

Em 1941, o jovem que saiu de sua terra, Manaus, para estudar violino no Rio de Janeiro, passa a ter aulas de composição com Hans-Joachim Koellreutter. Em cerca de um ano e meio de estudos, torna-se um dos mais ativos membros do Grupo Música Viva, primeiro movimento de atualização da música brasileira, liderado por Koellreutter. Até cerca de 1948, quando mudou sua estética pela primeira vez, Santoro já havia produzido dezenas de obras, em sua maioria atonais e dodecafônicas.

 

Música de câmara, 1944 

A obra foi composta especialmente para o Boletín Latinoamericano de Música (vol. VI) e dedicada ao seu organizador, Curt Lange, grande incentivador da renovação estética na música brasileira. Foi estreada em Buenos Aires, em 1949. Começa com um solo de clarone que, em seus quatro primeiros compassos, expõe a série dodecafônica em que se baseia a peça. Mas, o compositor conduz seu trabalho com muita liberdade e, nas entradas sucessivas dos instrumentos, percebe-se a utilização de células imitativas, culminando com a entrada da flauta. A textura se adensa até a chegada da parte central da obra, formada por duas seções de andamento lento, separadas por um breve momento mais agitado e forte. A segunda seção lenta é menos densa a princípio, porém novamente as entradas sucessivas, desta vez auxiliadas pelo aumento gradual da atividade rítmica, levam a um novo clímax. A parte final é a lembrança dos trechos anteriores, porém muito condensada; a Coda, em tempo novamente lento (Quasi Coral), é translúcida e, ao final, as notas curtas são como pinceladas de cor.

 

 

CÉSAR GUERRA-PEIXE 1914–1993 

 

Em 1934, tal como Santoro, Guerra-Peixe, natural de Petrópolis, também foi viver no Rio de Janeiro para estudar violino. Seu estudo com Hans-Joachim Koellreutter tardou um pouco mais, porém foi mais longo: cerca de dois anos e meio, a partir de 1944. Participou ativamente do Grupo Música Viva tornando-se seu compositor mais destacado, a julgar pela divulgação internacional de suas obras: na Argentina (Música de câmara), Inglaterra, Bélgica e Canadá (Sinfonia n.1), além de outras composições, todas elas dodecafônicas. Isto lhe valeu o convite, formulado pelo regente alemão Hermann Scherchen, para viver e trabalhar na Suíça, que acabou recusando, pois no mesmo ano, 1949, decidiu mudar sua direção estética.

 

Noneto, 1945 

É a obra dodecafônica brasileira mais tocada no exterior, durante o período pós-guerra. Foi estreada na Rádio de Zurique, em 1948, sob a regência de Hermann Scherchen, que a dirigiu também em outros países: Alemanha, Áustria e Itália. No ano seguinte, foi tocada em São Paulo, no concerto inaugural do Museu de Arte Moderna, sob a regência de Hans-Joachim Koellreutter que, no mesmo ano, voltou a regê-la no Curso Internacional de Férias de Música Nova, em Darmstadt, Alemanha. Em três movimentos, o compositor utiliza a série com grande liberdade, mas evita o uso da imitação de motivos melódicos. No primeiro movimento, o Allegro é intercalado por três seções lentas e curtas, terminando com a terceira delas. O segundo movimento tem discurso contínuo. No terceiro, novamente o compositor interrompe o tempo Vivace com duas seções curtas e lentas; a segunda, em Adagio, conclui a obra.

 

 

OLIVIER TONI (1926) 

 

Maestro e compositor fundamental na história da música brasileira e de São Paulo, foi discípulo de Mario Rossini, Martin Braunwieser, Hans Joachim Koellreuter e Mozart Camargo Guarnieri. Participou da formação de várias gerações de intérpretes, musicólogos e compositores brasileiros como Gilberto Mendes, Willy Corrêa de Oliveira, Silvio Ferraz e Flo Menezes, entre outros. Fundou as orquestras Sinfônica Jovem Municipal (1968), Sinfônica da Universidade de São Paulo (1972), de Câmara da Universidade de São Paulo (1995) e a Escola Municipal de Música (1969), além do Departamento de Música da ECA/USP, onde é professor titular desde 1970, tendo em 2001 recebido o título de “Professor Emérito”.

 

Recitativo II para violino solo, 1988  

A orientação estética do compositor Olivier Toni é bem representada em obras para instrumentos solo. A peça, dedicada ao violinista Claudio Cruz, utiliza um desenho sobre as notas dó, lá e ré, que são representadas pelas letras C, A, D, presentes no nome do violinista. Por ser um recitativo, apropria-se de diversos elementos da fala e da expressão oral, como exclamações de ódio e alegria, e possui uma forma musical menos rígida. Sua preocupação em ouvir primeiramente um espaço sonoro amplo e distendido a ouvir blocos de notas aglomerados é umas dascaracterísticas marcantes de suas peças.

 

 

GILBERTO MENDES (1922) 

 

Ao final da década de 50, Gilberto Mendes, orientado por Olivier Toni, começou a compor peças dodecafônicas, abandonando suas primeiras experiências com preocupação nacionalista. Voltando de longa viagem pela Europa, em 1959, trouxe consigo obras de Karlheinz Stockhausen, que passou a estudar detalhadamente, o que influenciou algumas de suas composições subsequentes.

 

Música para doze instrumentos, 1961 
 

Música para doze instrumentos foi encomendada pela Orquestra de Câmara de São Paulo para ser apresentada em concerto promovido pela VI Bienal de Arte Moderna, transmitido pela TV Excelsior, sob a regência de Olivier Toni. A repetição do concerto, em Santos, foi um dos eventos que originaram o Festival Música Nova, em 1962. É melhor recorrermos ao compositor para explicar sua própria obra: “é minha primeira total adesão à estética da neue Musik, um marco em minha produção. Eu saquei aquela ideia de contínuo ‘devir’, sem repetição de motivos, períodos, de nada que pressupusesse forma, na obra que conhecia de Stockhausen, e tratei de aplicá-la à minha música. À assimetria nervosa do desenho rítmico, (...) eu opunha em vários momentos a periodicidade do desenho rítmico folclórico tocado pelo berimbau que introduzi na peça. Era a minha novidade, minha contribuição, como signo novo, àquela linguagem universal que me seduzia”.

 

 

WILLY CORRÊA DE OLIVEIRA (1938)

 

Nascido no Recife, tem suas primeiras composições influenciadas pelo nacionalismo. Nos anos 60, devido ao contato com Olivier Toni, se aproxima das vanguardas musicais europeias, sendo especialmente influenciado pelo compositor belga Henri Pousseur. Neste período, após frequentar centros de pesquisa e produção musical na Europa, idealiza juntamente com Gilberto Mendes, Rogério Duprat, Damiano Cozzela e Julio Medaglia, o Grupo Música Nova. Foi professor na USP por mais de 30 anos, tendo formado várias gerações de compositores brasileiros.

 

Phantasiestück I, 1972 

Obra de formação pouco usual, desenvolve-se a partir do confronto entre sobreposições de camadas polirrítmicas, melodias acompanhadas por efeitos instrumentais estendidos e pequenos módulos de improvisação. Além do sistema tradicional de escrita, o compositor faz uso do sistema de escrita gráfico, possibilitando a exploração de situações musicais indeterminadas. O uso de citações de trechos de obras compostas em diferentes momentos históricos é um recurso utilizado por Willy, que delineia assim o campo de referências semânticas que deseja associar à sua peça. A citação final sugere que todo o material melódico foi gerado a partir de transformações deste pequeno trecho extraído do Trio para piano, trompa e violino de Johannes Brahms. 

 

 

LINDEMBERGUE CARDOSO 1939–1989 

 

Membro fundador do Grupo de Compositores da Bahia (1966-1973), nasceu no interior daquele estado, onde tocou em bandas de música. Em Salvador, desde 1961, estudou composição com Ernst Widmer, na UFBa, tornando-se professor da mesma instituição. Atuou também como fagotista e regente coral, mas destacou-se realmente como compositor, tendo sido premiado em diversos concursos nacionais; deixou 110 composições.

 

Réquiem para o Sol, 1976 

A obra foi premiada no II Concurso Nacional de Composição “Conjunto Música Nova da UFBa”, grupo fundado em 1973, que estimulou a criação de numerosas obras para esta formação específica. O compositor utiliza compassos regulares que delimitam os acontecimentos musicais. Em diversos pontos, determina também as alturas, durações e configurações rítmicas. O que caracteriza a obra, porém, é o predomínio dos elementos musicais com certo índice de aleatoriedade, favorecidos pela escrita gráfica, que faculta ao compositor maior liberdade e, ao mesmo tempo, permite que exerça certo controle sobre a própria indeterminação. É assim, por exemplo, que o instrumentista, em certos trechos, pode escolher as alturas, mas deve observar os perfis melódicos propostos ou limitar-se a certas tessituras. O compositor recorre também a diversos procedimentos e sonoridades específicas: glissandi, clusters, sons harmônicos e efeitos resultantes da utilização pouco convencional de alguns instrumentos, chegando aos ruídos. Inclui uma enxada entre os instrumentos de percussão e dá a ela certo relevo no final da obra, em diálogo com o fagote. Episódio que poderia ter associação autobiográfica, pois lembra a origem do compositor, no interior baiano, e o instrumento erudito ao qual se dedicou.

 

 

 

 

 

PROGRAMA DO CONCERTO DE 23 E 27 DE JUNHO

DEPOIS DOS NÚMEROS

Regente: Eduardo Leandro

 

ISANG YUN

Piri 10’ (1971)

solo oboé

 

GESUALDO DA VENOSA

Transcrições de madrigais por Eduardo Guimarães Álvares 8’ (2010)

I-Dolcissima mia vita (Madrigali libro quinto, IV)

II - Tristis est anima mea (Responsoria Sanctae Spectantia Et Alia Ad Officium Hebdomadae)

III- Itene, o miei sospiri (Madrigali libro quinto, VII)

oboé, fagote, trompa, trompete, trombone, violino, viola, violoncelo, contrabaixo

 

LUCIANO BERIO

Sequenza V, para trombone 8’ (1966)

trombone solo

 

FRANCO DONATONI

Luci II 6’ (1996)

Fagote e trompa

 

PHILIPPE MANOURY

Le Livre des Claviers (extrait) – 7-8’ (1987)

Vibraphone solo

 

PIERRE BOULEZ

Dérive I - 7’ (1984)

flauta, clarinete, vibrafone, piano, violino, violoncelo

 

GIACINTO SCELSI

Nuits 15’ (1972)

solo contrabaixo

 

LUCIANO BERIO

Ricorrenze 16’ (1987)

quinteto de sopros

 

Notas de programa

 

ISANG YUN (1917-1995)

Compositor sul-coreano naturalizado alemão. Preso e condenado à morte pelo serviço secreto sul-coreano devido à sua participação na resistência à ocupação japonesa, foi libertado devido a pressões diplomáticas internacionais. Radicou-se na Alemanha, entrando em contato com as

técnicas composicionais dodecafônicas e seriais que transformaram definitivamente seu pensamento musical.

 

Piri, 1971

Composição inspirada nas sonoridades e modos de se tocar o Piri, instrumento de sopro tradicional coreano, feito de bambu e, como o oboé, de palheta dupla. Esta obra representa muito bem o encontro entre ocidente e oriente presente na música de Isang Yun, apresentando de um lado os gestos musicais da música tradicional coreana, com seus glissandi, vibratos e distensões temporais, e de outro as estruturas dodecafônicas ocidentais, que direcionam os caminhos harmônico-melódicos.

  

CARLO GESUALDO DA VENOSA (1566-1613)

Príncipe e compositor italiano da Renascença tardia, sua música se caracteriza por uma intensa expressividade dramática obtida pela exploração de progressões harmônicas não diatônicas, constante uso do cromatismo, cortes texturais abruptos e alterações de andamento.

 

EDUARDO GUIMARÃES ÁLVARES

Professor de composição da Tom Jobim EMESP, estudou com Willy Corrêa de Oliveira e Gilberto Mendes. Sua obra transita entre o teatro musical e a escrita instrumental, destacando-se a utilização da voz em suas composições.

 

Dolcissima mia vita; Tristis est anima mea; Itene, o miei sospiri, 1611

As três obras foram compostas em 1611 – dois anos antes da morte de Gesualdo – e representam o estilo maduro do compositor. Dolcissima mia vita e Itene, o miei sospiri fazem

parte do quinto e penúltimo livro de madrigais composto por Gesualdo. Tristis est anima mea faz parte do Responsoria Sanctae Spectantia Et alia ad officium Hebdomadae. As versões instrumentais apresentadas neste concerto foram realizadas por Eduardo Guimarães Álvares em 2010.

  

LUCIANO BERIO (1925-2003)

Principal compositor italiano da segunda metade do século XX. Sua obra concilia o rigor e a inventividade da escritura erudita contemporânea com a vivacidade e espontaneidade encontrada nas músicas populares e tradicionais. Destacam-se em sua produção as pesquisas com a escrita vocal, em todos os seus domínios, da canção folclórica ao teatro musical, passando por obras solo, camerísticas e orquestrais.

 

Sequenza V, 1966

Em 1958, Berio iniciou sua série de Sequenzas. Escritas para instrumentos solo, estas obras exploram o virtuosismo instrumental histórico e específico de cada instrumento, aliando-os à investigação das novas sonoridades das técnicas instrumentais estendidas. Nesta Sequenza para trombone solo, são explorados efeitos não usuais como multifônicos, sons produzidos através da inalação de ar, além de efeitos tradicionalmente ligados ao instrumento como glissandi e surdina. Poeticamente esta obra é uma homenagem ao palhaço suíço Grock.

 

Ricorrenze, 1985-1987

Escrita em homenagem aos 60 anos de Pierre Boulez, esta obra explora os gestos e musicalidades específicas da escrita para quinteto de sopros. Notas rebatidas, séries de notas em apojaturas, trilos, trinados e linhas em blocos são os gestos musicais que sustentam as tramas musicais de Ricorrenze. É possível vislumbrar nestes gestos referências aos objetos

musicais boulezianos, vários deles presentes em Dérive I.

 

FRANCO DONATONI (1927-2000)

Compositor italiano, teve suas primeiras composições influenciadas por Bartók, Stravinsky e Hindemith. Após sua aproximação com o compositor Bruno Maderna, Donatoni direcionou suas pesquisas para as técnicas dodecafônicas e seriais. Destacou-se também por sua forte atividade no ensino de composição, tendo como alunos Ivan Fedèle, Pascal Dusapin e Magnus Lindenberg, entre outros.

 

Luci II, 1996

Peça encomendada pela Milano Musica para ser estreada no festival Luciano Berio 1996. De formação pouco usual, a peça faz parte de sua última fase composicional, que tem início após a morte de Maderna em 1973. Neste período Donatoni volta a compor de maneira mais imaginativa e lúdica reconciliando expressividade e lirismo e deixando de lado os processos combinatórios típicos do serialismo.

 

PHILIPPE MANOURY (1952)

Compositor francês de obra extensa e variada. Dentro de sua produção destacam-se suas pesquisas com eletrônica em tempo real, tendo sido um dos principais compositores pesquisadores do IRCAM – Instituto de Pesquisa e Coordenação Acústica/Música, em Paris. Após lecionar no IRCAM e no Conservatório Superior de Lyon, transferiu-se em 2004 para os EUA, onde é professor de composição da Universidade da Califórnia em San Diego.

 

Le Livre des claviers [excerto], 1987

Obra escrita para seis percussionistas e encomendada pelo grupo Percussões de Estrasburgo, da qual serão apresentados excerto. Neste ciclo, Manoury faz uso de instrumentos de percussão ressonantes, explorando especialmente instrumentos não ocidentais como o metalofone e os gongos tailandeses. Os espectros harmônicos ricos e não temperados destes instrumentos levam Manoury a explorar novos métodos e sistemas de composição.

 

PIERRE BOULEZ (1925)

Compositor, regente e teórico francês, é um dos principais nomes da música europeia da segunda metade do século XX. Suas obras, que em um primeiro momento se desenvolveram a partir das pesquisas com a técnica serial, refletem o comprometimento do compositor com os diversos aspectos envolvidos no fazer musical, da reflexão teórica à especulação com novas formas de execução e interpretação.

 

Dérive I, 1984

Feita em homenagem a Paul Sacher, o material harmônico da peça se baseia tanto na “soletração” musical do nome SACHER quanto em material previamente trabalhado em

outras obras, a saber: Répons e Poésies pour pouvoir. A exploração de objetos musicais claramente identificáveis aliada às técnicas seriais estendidas tornam Dérive I um bom exemplo do estilo tardio de Boulez, no qual invenção, rigor e comunicabilidade encontram-se em equilíbrio.

 

GIACINTO SCELSI (1905-1988)

Compositor italiano que, apesar de ter passado boa parte de sua vida distanciado dos principais círculos musicais da Europa, foi responsável por uma renovação no pensamento musical do século XX. Após superar uma grave crise pessoal, começou a compor tendo como material musical não mais as estruturas abstratas e teóricas da música europeia, mas sim a exploração do som em sua materialidade, propondo um mergulho transcendental no interior do evento sonoro.

 

Nuits, 1972

A obra é dividida em duas partes nas quais as referências às inquietações noturnas e profundezas do inconsciente se fazem a partir da angulação intervalar em C’est la nuit e da calma entorpecedora e hipnotizante das quintas e oitavas em Le reveil profond. No que diz respeito à escrita para contrabaixo, Scelsi faz uso de afinações específicas do instrumento (scordatura), notações precisas de posições de arcada e a utilização de dois pentagramas, tendo cada um dinâmicas e articulações próprias, no segundo movimento. A obra foi dedicada a um dos mais fervorosos intérpretes de Scelsi, o baixista Joëlle Léandre.