Ensino

Proposta Pedagógica

Um projeto de escola de música deve antes de tudo contemplar uma imagem de mundo sonoro. O mundo sonoro-musical atual é uma grande rede de cruzamentos no qual a música do séc. XVI convive com a do séc.XXI, e com as músicas asiáticas, indígena brasileira, urbanas. Em um campo amplo como este, um profissional do ensino de música não pode mais ser aquele que prejulga a música de outros povos e que elege uma única música como sendo “a música”. Não há mais “a música”, há apenas músicas. E neste novo e amplo domínio o ensino musical se reformula em um grande laboratório prático de escuta e invenção. Partituras tradicionais, partituras de escuta, gravações, experimentações com suporte tecnológico, novas técnicas interpretativas, todos estes ingredientes passam a ser o cotidiano do jovem estudante.

 

Neste contexto, as velhas disciplinas teóricas da música deveriam tornar-se mais ágeis para se adaptarem a um mundo que compreende outras velocidades, abrindo espaço para diálogo entre as mais diversas formas de invenção musical – de povos e épocas distintas. O professor de música há muito tempo vem deixando de ser aquele que apenas ditava regras de contraponto e harmonia, aquele que sentado ao piano tocava ditados melódicos ou que sabatinava solfejos todos os inícios de aulas. Este novo professor é aquele que tem na música o seu campo de experimentações, que faça desta vontade de invenção o suporte para suas estratégias de ensino. É ele o responsável por trabalhar um novo músico, um músico que deverá enfrentar um mercado multifacetado, onde muitas vezes um jovem violinista atuará como DJ nos finais de semana.

 

De certo modo, um professor que, aliado ao conhecimento musical tradicional, não tenha medo de compor e mergulhe na etnomusicologia e na etnologia, se deixe contagiar pelos mais recentes estudos em neurociências e ciências cognitivas, se lance em experimentações com auxílio de computador, etc. E que espelhe redes de conexões abertas, de Machaut a Cage e Tom Jobim, de Ligeti a Senleches e Solage, de Berio à música da África Central, de Mozart à música dos Yaualapitis, de Hermeto Pascoal a Vivaldi.

 

Para esta escola de música imagina-se o seu eixo em torno da prática instrumental. O aprendizado de um instrumento musical é a prática central, primeira, de um músico, seja ele regente, compositor, musicólogo, pedagogo. E as disciplinas da música deixam de ser tratadas como teóricas. Todo o aprendizado musical é prático: a prática da leitura da partitura, a prática da escrita da partitura, a prática da análise musical, a prática do instrumento e da voz.

 

Este é o desenho de um novo quadro a partir do antigo: não só solfejar, mas decifrar uma partitura, desde as notas até gestos, sonoridades e as mais diversas relações humanas que elas traduzem. Da simples partitura pode-se empreender uma viagem e conhecer a história da música ou como cada compositor inventou suas estratégias de criação. Também do simples fato de cantar em conjunto um estudante poderá compor todo um repertório que o localizará face uma música de um povo e outra de outro povo, uma de uma época e outra de outra época.

 

Silvio Ferraz